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Leilões, Permutas e Dações: As Transações de Imóveis Que Não São "Compra e Venda" em SP

89,4% das transações de imóveis em São Paulo no 1º trimestre de 2026 foram compra e venda — mas os outros 10,6% (5.213 operações) revelam o mercado paralelo de leilões, permutas, dações em pagamento e retomadas de banco. O número de imóveis arrematados em leilão mais que dobrou de janeiro a março, e as permutas têm o maior ticket médio de todos: R$ 912 mil.

Mercado Transparente
5 min de leitura
Martelo de leilão representando arrematação de imóveis

Quando se fala em comprar ou vender um imóvel, quase sempre se imagina uma compra e venda comum. E, de fato, 89,4% das transações de ITBI de São Paulo no primeiro trimestre de 2026 foram exatamente isso. Mas as outras 10,6% — 5.213 operações em três meses — revelam um mercado paralelo que raramente aparece nos portais de anúncio: leilões, permutas, dações em pagamento, retomadas de banco e partilhas de divórcio.

Cada guia de ITBI declara a natureza jurídica da transação. Esse campo é uma janela única para entender como o dinheiro e os imóveis efetivamente trocam de mãos na cidade — para além da compra e venda tradicional. Para o panorama geral do trimestre, veja o panorama do 1º trimestre de 2026.

A Distribuição das Naturezas no Trimestre

Natureza da transação

Operações

% do trimestre

Valor médio

Compra e venda

43.951

89,4%

R$ 666.961

Integralização de capital

1.444

2,9%

R$ 801.796

Dação em pagamento (escritura pública)

1.009

2,1%

R$ 625.910

Resolução de alienação fiduciária (inadimplência)

751

1,5%

R$ 422.735

Arrematação (leilão ou hasta pública)

445

0,9%

R$ 460.726

Permuta (escritura pública)

358

0,7%

R$ 912.714

Cessão de direitos

350

0,7%

R$ 248.268

Excesso de meação (separação / divórcio)

108

0,2%

R$ 260.005

A soma das naturezas "não-compra-e-venda" é pequena em percentual, mas relevante em número absoluto. E, mais importante, cada uma conta uma história diferente sobre o mercado.

Integralização de Capital: O Imóvel Que Vira Empresa

A segunda natureza mais comum (1.444 operações, 2,9%) é a integralização de capital — quando uma pessoa transfere um imóvel para o capital social de uma empresa, normalmente uma holding patrimonial. É um movimento típico de planejamento sucessório e tributário: famílias com patrimônio imobiliário criam uma pessoa jurídica e colocam os imóveis dentro dela, facilitando a gestão, a sucessão e, em muitos casos, reduzindo a carga tributária sobre aluguéis e a transmissão futura.

O valor médio é o segundo mais alto da tabela (R$ 801,8 mil), coerente com o perfil: quem monta holding patrimonial costuma ter imóveis acima da média. A presença consistente dessa natureza é um sinal de sofisticação patrimonial — e de que parte do mercado de alto padrão não está "comprando e vendendo", mas reorganizando estrutura jurídica.

Dação em Pagamento e Resolução Fiduciária: O Lado do Endividamento

Duas naturezas, somando 1.760 operações (3,6%), formam o que se pode chamar de mercado da dívida imobiliária:

  • A dação em pagamento (1.009 operações, R$ 626 mil em média) é quando um devedor quita uma dívida entregando um imóvel ao credor. É uma forma de saldar obrigações sem dinheiro em caixa.

  • A resolução de alienação fiduciária por inadimplemento (751 operações, R$ 423 mil) é a retomada do imóvel pelo banco após o comprador deixar de pagar o financiamento. Cada uma dessas 751 operações representa, no fundo, um financiamento que não deu certo.

Juntas, essas duas naturezas são um termômetro discreto do endividamento das famílias. Em um trimestre de juros altos — a Selic ficou em 15% ao ano até março —, o volume de retomadas e dações merece acompanhamento: é o tipo de indicador que antecede movimentos de estresse no crédito habitacional. E é também a origem de boa parte do estoque que reaparece, meses depois, em leilão.

Leilões: A Natureza Que Mais Cresceu no Trimestre

A arrematação em leilão ou hasta pública somou 445 operações no trimestre, com valor médio de R$ 460 mil. Mas o dado mais interessante está na trajetória mês a mês:

Mês

Imóveis arrematados em leilão

Janeiro 2026

101

Fevereiro 2026

129

Março 2026

215

O número de imóveis arrematados em leilão mais que dobrou de janeiro a março. Parte disso é sazonal (o calendário de leilões de bancos e da Justiça se intensifica ao longo do ano), mas a escalada é expressiva — e conversa diretamente com as 751 retomadas por inadimplência registradas no mesmo período. O caminho é conhecido: o comprador deixa de pagar → o banco retoma o imóvel (resolução fiduciária) → o imóvel vai a leilão (arrematação).

Para o investidor, o leilão é uma das poucas formas de comprar abaixo do valor de mercado — daí o interesse crescente. O ticket médio de R$ 461 mil mostra que não se trata só de imóveis populares: há de tudo no leilão paulistano. A contrapartida são os riscos (dívidas associadas, ocupação do imóvel, prazos de desocupação), que exigem cautela e assessoria.

Permuta: O Combustível Invisível da Incorporação

A permuta por escritura pública (358 operações) tem o maior valor médio de toda a tabela: R$ 912,7 mil. Não é coincidência. A permuta é o mecanismo clássico da incorporação imobiliária: o dono de um terreno o entrega a uma incorporadora e recebe, em troca, unidades do empreendimento que será construído ali (a chamada "permuta financeira" ou "permuta por área construída").

Por isso o ticket alto: permutas envolvem terrenos em regiões valorizadas, justamente os que viram lançamento. As 358 permutas do trimestre são, em boa parte, o estágio inicial de futuros prédios — um indicador antecedente da oferta que chegará ao mercado nos próximos anos. Some-se a isso o fato de que o terreno foi o segundo tipo de imóvel mais negociado do trimestre, e o quadro fica claro: São Paulo segue alimentando seu ciclo de incorporação.

Por Que Isso Importa

A maior parte das ferramentas de mercado — portais de anúncio, índices de preço — enxerga apenas a compra e venda tradicional. O ITBI enxerga o mercado inteiro: a holding patrimonial do empresário, o imóvel retomado pelo banco, o lote arrematado em leilão, o terreno permutado por apartamentos futuros. São 5.213 operações no trimestre que, somadas, desenham um retrato muito mais completo de como o patrimônio imobiliário circula na cidade.

Para quem investe, cada natureza é uma porta diferente: leilão para quem busca desconto, permuta para quem tem terreno, integralização para quem organiza patrimônio. E para quem só quer entender o mercado, fica a lição: nem toda transação é uma compra — e os 10,6% que fogem da regra são, muitas vezes, os mais reveladores.

Veja também as maiores vendas individuais do trimestre e o panorama completo do 1º trimestre de 2026. Todos os dados estão disponíveis, por endereço, no Mercado Transparente.

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    Leilões e Permutas de Imóveis em SP: ITBI 1º Tri 2026